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Gary Bolles e Ozioma Egwuonwu dizem a alunos da SPTech que o olhar dos jovens é vantagem no futuro do trabalho

Para Gary Bolles e Ozioma Egwuonwu, quem começa agora no mercado precisa de prática e de sonho

Quem começa a carreira agora chega às empresas com um olhar que os profissionais mais experientes nem sempre têm. A avaliação é de Gary Bolles, que por muitos anos liderou a área de futuro do trabalho da Singularity University, e da estrategista Ozioma Egwuonwu, criadora do World Dream Day, um dia mundial dedicado a tirar sonhos do papel.

Os dois conversaram com alunos da SPTech em São Paulo no último dia 30 de outubro. Para Gary, até a hesitação de algumas empresas em contratar jovens, agora que têm ferramentas de inteligência artificial (IA), abre uma oportunidade para quem chega preparado.

Ao responder a um aluno que perguntou se a IA vai tomar os empregos, Gary contou que algumas empresas ainda não sabem como aproveitar os jovens ao lado da tecnologia e estão mais cautelosas nas contratações. “E isso é uma oportunidade para vocês”, disse. “Quanto mais direção vocês tiverem e quanto mais experiência ganharem no estágio, mais vocês vão ajudar a descobrir o que fazer com essas ferramentas.”

A pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, do Observatório Fundação Itaú (2026), não mede o efeito da IA, mas ajuda a entender o peso da experiência: a falta dela é a principal dificuldade que os brasileiros de 16 a 29 anos apontam para conseguir trabalho.

Gary, que também é autor do livro The Next Rules of Work, vê ainda outra vantagem em quem começa agora, a de não carregar os hábitos de quem programa há 30 anos. “Vocês não precisam desaprender nada. Talvez precisem no futuro, mas agora é só aprender”, disse aos alunos.

O que os jovens trazem para uma equipe

Há 30 anos, Gary era diretor de operações de uma startup de software para recursos humanos que tinha captado US$ 30 milhões e reunia 70 funcionários, a maioria programadores, mas o produto não ficava pronto.

Ele procurou seis estudantes de Stanford e ofereceu ações da empresa para que passassem três meses buscando um problema que ninguém naquele mercado tinha conseguido resolver. O projeto que eles desenharam virou o produto com que a empresa abriu capital, e os programadores experientes tiveram de largar o que faziam para construí-lo.

Hoje, ele propõe um teste parecido a quem resiste a contratar jovens. Durante a visita ao Brasil, uma responsável por recursos humanos de uma empresa de games contou a ele que a direção só queria dar o trabalho aos programadores seniores. Gary sugeriu que ela entregasse a descrição de um jogo a uma equipe de seniores e a seis jovens contratados para isso, e que deixasse os jovens trabalhar em paz. “Veja quem ganha. Eu aposto nos jovens”, disse. O palpite dele é que os novatos inventariam outro jeito de fazer e um jogo que as pessoas da idade deles gostariam de jogar.

Gary citou ainda uma consultoria que contrata jovens e os coloca para ensinar as ferramentas mais recentes a profissionais mais velhos, uma troca que, para ele, cria respeito e confiança.

O conselho de Ozioma para quem está começando

No começo da vida profissional, em uma agência de publicidade, Ozioma participava de reuniões com pessoas mais experientes e notava coisas que elas não tinham notado. Um dia, ela decidiu falar e os colegas reagiram surpresos, porque não tinham pensado naquilo. Aos alunos, recomendou levar para o trabalho a pergunta “O que eu estou vendo que eles não estão vendo?” e se dar permissão para contribuir.

A ideia de enxergar aparece também quando ela fala de sonhos. Segundo, Ozioma, às vezes, é bom tirar os pés do chão para enxergar o sonho de cima, ver o que está faltando e depois voltar para decidir o próximo passo. Ela define o sonho como “a energia da possibilidade” e o plano como o jeito de fazer acontecer.

O programador mais perto do negócio

Com a parte de digitar e testar código cada vez mais rápida, o programador tende a se parecer com um analista de negócios, que entende do que um banco ou uma consultoria precisa e usa a IA para mostrar uma primeira versão na hora, ao lado de quem vai usar o sistema.

Foi o que Gary respondeu a um aluno que quis saber o que um curso de tecnologia deveria parar de ensinar, se a IA já escreve boa parte do código. Em outro momento da conversa, ele disse que, em muitas organizações, fazer consultas a chatbots e construir agentes será conhecimento básico, como hoje é usar uma planilha, sem que todos precisem virar especialistas. Ozioma completou que, onde antes um analista júnior fazia as perguntas, muitas vezes já é a tecnologia que recolhe as informações, e o profissional fica com a tarefa de interpretar o resultado. Por isso, defendeu que o jovem desenvolva também o discernimento para saber como perguntar e como olhar os dados e, afirmou: “Sem isso, não há muito como se diferenciar”,

Em entrevista concedida à SPTech, Ozioma fez uma ressalva sobre a IA. Ela pondera que a tecnologia faz diferença em áreas como a medicina, mas que não deve servir para tudo e que “o veredito ainda não saiu” sobre se o saldo será positivo. Entre as preocupações dela estão o dano ao ambiente e a perda de habilidades de que as pessoas precisam para inovar. “Quando uma pessoa resolve um problema, fica o rastro do que ela aprendeu, e outras pessoas inovam a partir disso. Quando a IA resolve, o problema só fica resolvido”, afirmou.

O que mostrar a quem contrata

Mesmo sem experiência de trabalho, o estudante pode mostrar a quem contrata o que já sabe fazer, segundo Gary, que recomenda três passos:

O primeiro é contar os problemas que já resolveu na faculdade, no esporte ou com os amigos. O segundo é pesquisar quem são os clientes da empresa e que problemas eles têm. O terceiro, sobretudo para quem ainda não tem diploma ou certificado, é chegar a quem tem o poder de contratar, em geral quem lidera a equipe.

Quem dispara currículos em massa precisa saber que eles são tratados por algoritmos e que quase nenhuma pessoa vai vê-los, avisou.

O que falta a quem tem a idade daqueles alunos, disse, é uma rede de contatos, e Gary ofereceu a dele. “Eu prometo a cada um de vocês: quem se conectar comigo no LinkedIn, eu conecto de volta.” Ozioma acrescentou que, junto com a rede, é preciso construir um perfil profissional que distinga o candidato dos demais.

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